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Quando todo mundo sabe de tudo, quem ainda merece ser ouvido?



Em algum momento, não bastou saber fazer.

Passamos a precisar publicar que sabemos.


Se você abrir o LinkedIn ou o Instagram por alguns minutos, provavelmente encontrará alguém explicando os "5 erros que estão destruindo o seu negócio".


Outra pessoa revelando aquilo que “ninguém te conta”.


Alguém dizendo o que faria se estivesse começando hoje.


E, alguns posts depois, aparece uma opinião definitiva sobre um assunto que provavelmente levaria horas para ser discutido com alguma profundidade.


Os temas mudam.

A mensagem escondida parece quase sempre a mesma: eu sei alguma coisa que você ainda não sabe.


Talvez exista algo curioso acontecendo com a maneira como demonstramos conhecimento na internet.


Não basta mais trabalhar bem.

É preciso explicar como se trabalha bem.


Não basta compreender um assunto.

É preciso ter uma opinião sobre ele.


Não basta possuir experiência.

É preciso transformá-la em conteúdo.


Em algum momento, conhecimento deixou de ser apenas competência e virou também performance.



Mas existe um bom motivo para isso:


Em uma pesquisa com quase 3.500 executivos de sete mercados, 73% dos tomadores de decisão disseram considerar conteúdos de thought leadership uma base mais confiável para avaliar a competência de uma empresa do que seus próprios materiais de marketing e fichas de produto.


Faz sentido.


Se uma empresa “diz” que é especialista, temos propaganda.


Quando ela nos ajuda a compreender um problema que não estávamos enxergando, temos uma evidência.


Por isso, produzir conteúdo se tornou uma espécie de demonstração pública de competência.


O arquiteto ensina arquitetura.

O advogado comenta decisões jurídicas.

A incorporadora explica mercado imobiliário.

A empresa de tecnologia analisa transformação digital.


E assim construímos uma espécie de economia da autoridade, na qual parte da reputação profissional passa pelo que conseguimos tornar público sobre aquilo que sabemos.


Até aqui, nada de errado.

O problema começa quando percebemos que autoridade também possui uma estética.







O especialista também virou um formato


Existem algumas estruturas que aprendemos rapidamente a reconhecer.


“5 erros que…”

“O que ninguém te conta sobre…”

“Se você ainda faz isso…”

“Pare imediatamente de…”

“A verdade sobre…”


Não significa que esses conteúdos sejam necessariamente ruins.


O problema aparece quando a necessidade de produzir uma conclusão começa a vir antes da necessidade de construir um raciocínio.


Porque redes sociais exigem síntese.

Mas algumas coisas simplesmente não cabem em uma frase definitiva.


Estratégia depende.

Gestão depende.

Comportamento humano depende bastante.

Marketing depende quase sempre.


E talvez seja exatamente aí que exista uma das maiores diferenças entre simplificar conhecimento e simplificar a realidade.


Uma pessoa pode compreender profundamente um assunto e ainda assim conseguir explicá-lo de maneira simples.


Outra coisa é remover todas as condições, contradições e exceções até que a ideia finalmente caiba em uma frase de impacto.


A primeira coisa é clareza.

A segunda pode ser apenas "certeza" performática.


e certeza não é, necessariamente, sinônimo de conhecimento :/



Existe uma ideia meio contraintuitiva aqui.


Imaginamos que parecer especialista significa possuir respostas rápidas, segurança e convicção.

Mas conhecimento profundo frequentemente faz o movimento contrário.


Quanto mais entendemos determinada questão, mais começamos a perceber suas variáveis.


Um estudo publicado em 2024 no periódico Public Understanding of Science testou justamente o que acontece quando especialistas comunicam ou escondem a complexidade de um assunto.


Os pesquisadores apresentaram diferentes formas de comunicação sobre energia sustentável para 432 participantes. Quando a complexidade do tema era preservada, em vez de artificialmente reduzida, os especialistas eram percebidos como mais confiáveis, e os participantes demonstravam maior humildade intelectual diante do assunto. (Sage Journals)


Talvez o resultado seja menos estranho do que parece.

Pense em uma pessoa que realmente domina algum assunto.


Ela provavelmente diz coisas como:

“depende do contexto.”

“existem duas maneiras de olhar para isso.”

“essa estratégia funciona aqui, mas talvez não funcione ali.”

“com os dados que temos hoje, minha leitura é essa.”


Existe conhecimento nessa hesitação.


Não uma insegurança sobre aquilo que se sabe, mas uma consciência sobre aquilo que ainda não se sabe.


A psicologia chama parte disso de intellectual humility, ou humildade intelectual: a capacidade de reconhecer os limites do próprio conhecimento sem necessariamente abandonar suas convicções.


Talvez tenhamos associado autoridade demais à certeza e de menos à capacidade de pensar.


Tem muita gente ensinando,

mas pouca gente fazendo pensar.



Aqui aparece outro dado interessante.


No mesmo estudo da Edelman e do LinkedIn, apenas 15% dos tomadores de decisão classificaram a maior parte dos conteúdos de thought leadership que consomem como muito boa ou excelente.


O número cria um paradoxo.


Nunca produzimos tanto conteúdo para demonstrar conhecimento.

Mas conteúdo de autoridade realmente bom continua sendo raro.


Talvez porque publicar conhecimento e possuir pensamento próprio sejam duas coisas diferentes.


Você pode pesquisar dez referências sobre um assunto, organizá-las em um carrossel impecável e produzir um conteúdo tecnicamente correto.


Mas ainda falta alguma coisa: qual é a sua leitura sobre isso?


Não necessariamente uma opinião polêmica.

Nem um “hot take” criado para gerar comentário.


Pensamento significa conseguir juntar repertório, experiência e observação até enxergar uma relação que talvez não estivesse evidente antes.


É isso que diferencia um conteúdo que informa de um conteúdo que muda alguma coisa na maneira como alguém pensa.



As marcas também caíram nessa armadilha


Para empresas, essa discussão fica ainda mais importante.

Durante anos, muitas marcas aprenderam que produzir conteúdo educativo ajudava a construir autoridade.


Então começaram a ensinar.

E ensinar.

E ensinar.


Até que quase todas passaram a publicar versões semelhantes das mesmas ideias.


5 tendências.

3 erros.

7 dicas.

O futuro do setor.

O que esperar do próximo ano.


O resultado é estranho.

As empresas estão falando cada vez mais.

Mas fica cada vez mais difícil descobrir como elas realmente pensam.


E talvez thought leadership devesse significar exatamente isso.

Não tentar demonstrar que sua empresa conhece determinado assunto.

Mas revelar qual é a maneira particular como ela enxerga esse assunto.


Porque conhecimento pode ser encontrado em muitos lugares.

Informação, então, nem se fala.


O que ainda é difícil de copiar é repertório organizado por uma perspectiva própria.



Talvez autoridade seja consequência

Existe uma diferença sutil entre tentar parecer inteligente

e produzir alguma coisa que faça outra pessoa pensar.


No primeiro caso, o conteúdo aponta para quem escreveu: “olha o quanto eu sei.”

No segundo, aponta para quem está lendo: “olha algo que talvez você ainda não tivesse percebido.”


Essa diferença muda bastante coisa.


Talvez a pergunta antes de publicar não devesse ser:

“isso demonstra nossa autoridade?”

mas:

“isso ajuda alguém a enxergar melhor alguma coisa?”


Se a resposta for sim, autoridade provavelmente virá como consequência.

Porque quem realmente domina um assunto não precisa transformar cada frase em uma aula.


Pode investigar.

Pode fazer perguntas.

Pode mudar de opinião.

Pode dizer “não sei”.


Pode apresentar uma contradição sem necessariamente resolvê-la em oito slides.


E talvez, em um ambiente cheio de especialistas performando certeza, exista algo surpreendentemente poderoso em demonstrar pensamento.




 
 
 

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Ramon Zorn
há 6 dias
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